Você [não] deve se posicionar!

— Você viu ontem aquele caso de agressão praticado pelo Fulano?

— Não vi. O que foi?

— Como assim que você não viu? Só se fala disso nas redes sociais!

— Desculpa, mas eu realmente não vi…

— Não importa, pois agora eu estou falando para você. Deixe eu mostrar… aqui. Viu? Viu só esse absurdo?!

— …

— Você não vai falar nada?

— Você quer que eu fale o quê?

— Ué, você precisa se manifestar e se posicionar contra esse absurdo.

Alguns dias depois, em uma conversa pelas costas: “Você viu que a Beltrana não falou nada sobre a agressão do Fulano? E fui eu que mostrei o caso para ela, não tem como ela dizer que não sabia de nada. Na hora ela não falou nada, mas eu achei que ela fosse se posicionar. Que absurdo! Acho que ela está passando pano para o Fulano, ou então vai ver que ela concorda com esse tipo de agressão.”

A história acima, com variações, é uma realidade de nossa sociedade atual, sobre temas diversos. O conceito de agressão também foi unificado, aglomerando todas as nuances, graus e contornos possíveis, indo da simples ironia às vias de fato; o sufixo fobia concatenou-se a tudo quanto é radical, multiplicando o número de neologismos do nosso idioma e categorizando as pessoas em novos grupos até então inexistentes. Hoje temos qualquer-coisa-fobia para tudo que se possa imaginar; ao contrário de algumas patologias, que carregam esse sufixo no nome por definição, em outras fobias trata-se de um rótulo para designar desvios morais, éticos e até mesmo, em situações esdrúxulas, simples opiniões adversas que incomodam determinadas pessoas.

O ser humano tem um anseio bastante forte de julgar as pessoas; palavras lapidares de Jesus de Nazaré como “não julgueis e não sereis julgados”, proferidas há mais de dois mil anos, são totalmente desconsideradas por muitas pessoas.

Até aqui, não há nenhuma novidade: é o ser humano em ação. O que mudou?

Ao ponto: Internet, redes sociais e smartphones.

Até a popularização massiva da Internet, das redes sociais, do smartphone e da grande disponibilidade de acesso às redes — hoje, estamos conectados à Internet vinte e quatro horas por dia em praticamente todos os lugares que frequentamos — as pessoas tinham voz, opinião e julgavam (muito) a todos, só que com uma sutil diferença: seus julgamentos não tinham amplitude e causavam pouco efeito prático. As famosas fofocas, boatos e julgamentos apressados de terceiros existem desde que o mundo é mundo; inclusive, alguns historiadores e psicólogos creditam à fofoca o status de um dos pilares da dita revolução cognitiva. Todavia, antes da Internet, para que uma fofoca, um boato ou um julgamento injusto tivesse efeito prático na vida do julgado levava-se muito tempo; era necessário um considerável esforço social para sustentar o caso e levá-lo adiante, para a informação se disseminar e chegar ao conhecimento das pessoas; além disso, sem muita tecnologia, as histórias não alcançavam muitas milhas de distância, num processo dominado pela lentidão; a amplitude era baixa.

Hoje, não é mais assim.

É verdade que com os jornais impressos, o rádio e a televisão já havia se iniciado um processo acelerador do fenômeno descrito acima, mas ainda assim havia uma barreira a transpor: os meios de comunicação estavam nas mãos e eram controlados por poucas pessoas. Para que você, um mero mortal, pudesse emplacar sua narrativa, descarregar sua raiva, seu julgamento e fazê-los chegar ao conhecimento de um grande número de pessoas, você precisaria antes convencer o detentor do meio de comunicação para que publicasse seus posicionamentos.

Eis, então, que veio a Internet, as redes sociais e os smartphones: três coisas distintas que surgiram em momentos diferentes (ainda que próximos) e que estão intimamente conectadas, formando um boost perfeito para quem gosta de julgar.

A Internet é um mundo. Ter acesso a ela abriu as portas que antes eram vigiadas e resguardadas pelos controladores dos meios de comunicação, mencionados anteriormente. Ok, mas de que adianta você entrar num salão em que todo o mundo está ali mas ninguém lhe ouve ou dá a devida atenção? Ademais, de que adianta falar para pessoas que nem te conhecem ou não estão interessadas em suas histórias? Nesse ponto, a Internet, isoladamente, não mudou muita coisa — até o surgimento das redes sociais.

Com bem pouco tempo de Internet, uma ideia brilhante surgiu: aproximar e reunir as pessoas que você conhece, convive ou tem interesses em comum. As redes sociais nada mais são do que isso. Percebam que o conceito de rede social é amplo: uma sala de jogos, uma rede de compartilhamento de fotos, de vídeos ou de troca de mensagens diretas em grupos podem ser considerados uma rede social. O salão que antes estava abarrotado de gente barulhenta onde ninguém se ouvia ou dava bola uns aos outros foi organizado em ambientes de interesses em comum. Ainda assim, faltava algo.

De que adianta você adentrar um salão em que o mundo todo está ali, os ambientes estão organizados por interesses em comum e são frequentados por pessoas que você conhece, se as pessoas simplesmente não estarão o tempo todo nele? Uma chega às sete horas e fica por dez minutos; outra só entra à noite, quando todos os amigos já foram embora etc.; para que os efeitos sejam maiores, é necessário assegurar que todos estejam o tempo todo no salão, atentos a tudo quase que instantaneamente. Foi aí que o smartphone e a grande disponibilidade de conexão à Internet resolveu o problema.

Com o trio completo ficou bastante efetivo julgar os outros; a voz dos juízes amadores ganhou uma amplitude que nunca teve, ao mínimo esforço; agora, cada sentença proferida chega ao conhecimento de todos os interessados diretos e indiretos da matéria em segundos, sem direito ao contraditório ou à ampla defesa por parte do réu. Perfeito!

Nem George Orwell, quando escreveu o romance “1984”, imaginou que as tais teletelas, na verdade, não ficariam sob operação de um único Grande Irmão, mas sim que estaria nas mãos de todas as pessoas. Hoje, todo mundo escreve, grava, filma, fotografa, edita, monta, forja e compartilha com quem quiser toda e qualquer informação em questão de segundos, na forma de texto, áudio, imagem e vídeo. Tudo, tudo, tudo! A efetividade e a amplitude nunca foram tão grandes.

O que fazer?

Não há muito o que possa ser feito. Com fiscais e juízes por todos os lados, o melhor que se pode fazer é a opção pelo silêncio, a não manifestação, a invisibilidade.

“Ah, mas você deve se posicionar! Você deve se manifestar!”

Por quê? Para quem? Para eu ser julgada por um bando de imbecis de raciocínio limitado, tosco e que nunca tiveram a capacidade de conceber uma ideia? Um monte de gente vaidosa que só sabe macaquear o seu semelhante, replicar ideias de terceiros mas que, no fundo, são uma desgraça de pessoas?

Não, obrigada. Se é para ser julgada, prefiro ser julgada por não me manifestar.

Como que vou me manifestar publicamente sobre algo que não vi, que desconheço os detalhes, as motivações, as circunstâncias, o histórico dos envolvidos, a sucessão dos fatos etc.? Julgamentos apressados baseados em evidências precárias são bem perigosos. Não, eu prefiro não opinar — e isso é o mais justo a se fazer.

Quem deve julgar é quem tem legitimidade para tanto. Nas sociedades contemporâneas, temos o sistema judiciário legalmente constituído; nas sociedades antigas ou nas tribos mais antigas ainda, a função de juiz ficava geralmente a cargo de integrantes mais velhos e sábios. E se alguém ainda acha que palavras em redes sociais estão distantes de um julgamento, eu convido a refletir sobre os efeitos e a amplitude que tais palavras exercem no condenado.

Desculpem-me, mas não vou me juntar a um monte de gente que mal saiu das fraldas, sem vivência alguma, e corroborar, ou reverberar, posicionamentos infantis, tendenciosos, maliciosos e venenosos só porque “eu devo me manifestar”.


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