Não julgue uma pessoa pelo grupo

No dia de ontem, ao chegar no trabalho de manhã cedo, uma conversa rolava na sala do café. Naquela manhã, por uma razão inexplicável, acordara meio meditativo e resolvi ficar calado no bate papo matinal. Entre um gole e outro de café que embaçava os meus óculos, ouvia a conversa que se desenvolvia entre algumas pessoas, cuja identidade não vem ao caso. Abstenho-me de escrever uma linha sequer sobre elas e suas emoções naquela manhã. Quero só relatar um pouco do diálogo entre elas para introduzir uma reflexão que se assomou em mim desde ontem.

— Pois é! Eu vi aquilo que ele curtiu no grupo. Mas sabe que ele é de direita, né?

— Sério?! Não acredito! Justo ele, que parecia ser tão legal…

— Pois é! Eu soube disso pela Ana. Ela ficou pra morrer, porque sabe que eles estavam saindo, né?

— Mas é pra ficar, mesmo! Que desperdício!

Escolhi o silêncio: simulei a leitura de algo no celular e afastei-me de fininho, sorrateiramente, fingindo que não ouvira os comentários. Afinal, eu conhecia muito bem a pessoa sobre a qual provavelmente falavam; aliás, estava certo para mim sobre quem fofocavam. Deixem eu esclarecer: faço parte de um grupo de mensagens em que anteontem houve uma curtida em algo, digamos, menos usual daquilo que se posta costumeiramente no grupo; quem curtiu foi uma pessoa que fazia parte do círculo comum a nós, e mais: estava saindo com a Ana. Não poderia haver tanta coincidência: tiro como certo de que estavam falando do meu amigo João Paulo.

Mas que torpeza, que baixaria! Vou explicar, pois a história foi uma ninharia qualquer: o João Paulo simplesmente curtiu uma piada sobre o atual presidente que uma outra pessoa encaminhara. Somente isso e nada mais. E como o julgamento das pessoas mudou rapidamente: o JP deixou de ser uma pessoa legal para somente parecer legal; o amor, paixão ou admiração (ou seja lá o que a Ana sente ou sentia por ele) foi substituído por um sentimento mortífero.

Como é fácil e conveniente classificar e julgar as pessoas de acordo com supostos grupos a que elas pertencem e não por aquilo que elas são ou fazem, não é? Afinal, é muito difícil conhecer e decifrar uma pessoa; e como é fácil aplicar uma definição de grupo e revesti-la nos outros, passando a encará-la como se fosse uma réplica perfeita de um grupo.

Esse reducionismo é criminoso! Essa simplificação é um acinte!

As pessoas estão com preguiça de pensar, com dificuldades de estabelecer vínculos sociais profundos, têm limitações intelectivas, emocionais e cognitivas, e estão colocando as pessoas em molduras conceituais e comportamentais como se fossem salsichas de uma fábrica; como se fossem mercadorias rotuladas, com marcas de um fabricante, disponíveis em gôndolas para serem consumidas e avaliadas, preferidas ou odiadas.

Que tristeza!

O meu amigo JP é uma pessoa fantástica! Como eu gosto de conviver com ele! Uma pessoa inteligente, amável, gentil e extremamente generosa, que não mede esforços para ajudar as pessoas — que foi julgado por uma curtida, por supostamente pertencer a um grupo.

E será mesmo que pertence a um grupo?

Quando uma pessoa declara que torce para certo time de futebol; que tem determinado alinhamento político ou que frequenta determinada igreja — será que essa pessoa deve ser julgada pela média dos grupos da qual faz parte? ser julgada por ações que não tomou ou por aquilo que ela sequer manifestou ser?

Na outra extremidade, existem pessoas que se beneficiam de uma condição de pertencerem a certos grupos que estão na cena atual como a bola da vez a ser acalentada; têm suas atitudes reavaliadas com outro peso e outra medida, não por aquilo que fazem ou são, mas sim por serem de um grupo.

Rótulos. A depender do seu, a inocência presumida ou a condenação prévia — desvinculada de qualquer fato, sem muito meio termo.

Quando as pessoas se tratarão por aquilo que elas são, e não condicionado ao grupo que elas pertencem?


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